06/05/2013

Sala de espera

O pé de Charlotte sacudia freneticamente. Sentada de pernas cruzadas, usando um vestido vermelho de saia rodada, oferecia uma visão bem bonita para o cara sentado à três cadeiras de distância e que tinha taras por pernas. Charlotte estava com fome. Era obrigatório ficar de jejum para o exame de sangue, sim, mas não tinha conseguido comer muito desde o dia que viu Joaquim.

Além do mais, já fazia dieta afim de manter o corpo tonificado e sem gordurinhas extras que atrapalhassem seus exercícios de balé.

À sua frente uma mãe equilibrava um bebê em pé sob suas coxas, fazendo firulas para que não recomeçasse à chorar de tédio. Afinal, só podia ser de tédio que o bebê chorava às vezes - não de fome, nem de dor ou sede, somente tédio. Se eu, que só dependo de mim mesma, sofro de tédio quase a semana inteira, porquê ele não? 

Quer dizer, ele vírgula, não tinha conseguido ainda definir qual era o sexo do bebê, que vestia somente um daqueles macacõezinhos cheios de bichinhos. Talvez seja essa uma manobra dos pais para confundir as pessoas. Ou dos fabricantes para vender mais roupinhas. 

Charlotte não compreendia como ela, já suposta dona do próprio nariz, sofria de tédio tão frequentemente. Considerando que ela poderia conhecer o que ela quisesse, sentia-se presa em uma bolha de infinita mesmice em que fingir fazer algo diferente era a única forma de não sentir-se tão medíocre quanto sabe que é.

A enfermeira apareceu na porta. Sua vez.

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