Acho que nunca me senti tão mal por decepcionar alguém quanto quando eu, sem querer, decepcionei aquela garotinha. Eu estava subindo as escadas do meu prédio - voltando do mercado, distraída comendo pedaços do pão quente e pela música nos fones de ouvido - e lá pelo segundo andar estaquei no topo do lance de escadas quando a porta do apartamento à minha esquerda abriu, revelando um rostinho iluminado pelo prazer. Nunca vou esquecer do brilho naqueles olhos.
Ela sorria, um sorriso quase sem dentes. Com um pijaminha travestido em vestido rosa de babados, com um animal fofo na frente. Tinha maria chiquinhas tortas e a bochecha suja de alguma coisa parecida com hidrocoro. Segurava as grades, gritando extasiada:
- Mamãe! Acho que o papai chegou!
Mas no meio do grito e da alegria, ela me viu. Parou no meio de uma gargalhada e seu sorriso murchou, o brilho de seus olhos diminuiu gradativamente e um bico se fez no rosto bochechudo. Então, ela bateu a porta. Eu ainda estava parada no topo da escada, a mão segurando o pão à meio caminho da boca. Nos poucos segundos que isso aconteceu eu permaneci parada, atordoada.
Essa menininha que eu - morando no prédio há 3 anos - nunca tinha visto (e não voltei à ver, somente vi o pai dela, um dia) teve o poder que quase nada e uma ou duas pessoas tiveram: Tirou-me do meu mundo, do meu eixo, e com tão pouco! Continuei subindo as escadas, fiz sanduíches para mim e para minha mãe e fui dormir, sem pensar na garotinha que esperava com tanta alegria o pai e se decepcionou tanto quando me viu. Mas passei a noite e dormi com um sentimento estranho me perturbando.
E esse sentimento me ocorre toda vez que passo na frente daquele apartamento. Essa agonia estranha, uma mistura de sentimento de ter fracassado com alguém, mais a falta de algo. Não sei exatamente do que tenho falta. Será que é a falta dessa espera entregue por alguém, sem ansiar por nada em troca? Ou de ter alguém, mesmo que uma menininha desdentada e com a bochecha suja, que te espera com essa pura entrega?
Não sei, realmente não sei. Da mesma forma que não sei o nome dela, nem sequer o número do apartamento me importei em saber. Pra quê?
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